quarta-feira, 6 de junho de 2007

Meu abacateiro

Quando compramos esta casa (Dona Zilda(minha sogra), Antonina (minha mulher) e eu, em Barbacena-MG, uma das coisas que nos atraiu foi o grande quintal, em pleno centro da cidade e todo plantado: abacateiro, jaboticabeira, mexerica, tangerina, laranjas diversas, ameixa amarela e até um belo pé de ameixa do japão. Isto foi no ano de 1974. Muita alegria já nos deu este quintal e também umas poucas tristezas. A ameixa do japão, como era um pé único e não tinha um outro nas redondezas, para polinização, produziu poucos frutos, adoeceu (talvez de tristeza por não ter uma parceira) e morreu. Neste quintal está sepultado (se é que se pode falar de sepultura para animais) o Faisca, um cachorrinho muito simpático e caçador de gambás. Foi enterrado com procissão e muitas lágrimas das crianças, ou melhor dizendo, o enterro mesmo foi solitário, só eu, o enxadão e a pá de coveiro. As crianças vieram depois, chorar, rezar e fazer umas homenagens ao falecido.
Este texto quer falar do abacateiro que, pelas minhas contas deve ter mais de 50 anos. Passou por duas podas, depois de ter sido quase assassinado por sufocantes ervas de passarinho. Foi conservado para fornecer frutos para os vizinhos e amigos, pois em outros tempos eu acreditava que abacate fosse prejudicial à saúde, entupidor de artérias e "um veneno para o fígado", causador de enxaqueca. Hoje a revista Veja, na sua onisciência, me convenceu de que um abacatinho por semana não faz mal a ninguém.
Há poucos dias a Beth, nossa factótum (cozinha, lava, passa, jardina, capina, trata do Dida, e mais 7 ofícios) a Beth veio dizer: o abacateiro caiu.
- Mas, não pode ser, não ventou tanto, choveu pouco. Caiu só um galho?
- Não, caiu todo.
Fui verificar, preocupado com o estrago, pois o meu quintal é uma tripa de 8 metros de largura e 60 metros de comprimento. Como o abacateiro tinha uns 9 ou dez metros de altura, fiquei imaginando muro quebrado, ou casa do vizinho atingida.
Não caiu o tronco, caiu a copa toda, sobrecarregada de frutos e com a chuvinha continuada, mais uma deficiência no tronco e a copa toda arreou, quase na vertical, resvalando no muro e ficando bem longe da casa do vizinho. Que alívio!
Estou distribuindo abacate para todos os vizinhos, para dois orfanatos e ainda tem muito abacate para ser distribuido. Aquilo que poderia ser uma pequena tragédia, tornou-se uma lida que está me proporcionando, e aos outros também, muita alegria.
Enquanto lido com os abacates, fui recordando histórias ocorridas neste quintal, nestes 33 anos. A jaboticabeira morreu, brocada por abelhas arapuá (depois de fazer a alegria de muitas crianças e de muita gente grande). Numa parte do quintal existem dezenas de roseiras plantadas por Dona Marcolina, minha mãe, que hoje cuida das roseiras de São Pedro.
Ah! ia me esquecendo da enorme mangueira, toda judiada pelo fungos, mas mesmo assim proporcionando frutos saborosos para toda a vizinhança. Foi o castelo encantado das crianças mais afoitas e corajosas, assim como o esconderijo dos gambás, fugindo do Faisca.
É bem verdade, as árvores são parte da nossa vida.


4 comentários:

Antônio disse...

Valentim

Numdá pralê!

caos e ordem disse...

Quando compramos esta casa (Dona Zilda(minha sogra), Antonina (minha mulher) e eu, em Barbacena-MG, uma das coisas que nos atraiu foi o grande quintal, em pleno centro da cidade e todo plantado: abacateiro, jaboticabeira, mexerica, tangerina, laranjas diversas, ameixa amarela e até um belo pé de ameixa do japão. Isto foi no ano de 1974. Muita alegria já nos deu este quintal e também umas poucas tristezas. A ameixa do japão, como era um pé único e não tinha um outro nas redondezas, para polinização, produziu poucos frutos, adoeceu (talvez de tristeza por não ter uma parceira) e morreu. Neste quintal está sepultado (se é que se pode falar de sepultura para animais) o Faisca, um cachorrinho muito simpático e caçador de gambás. Foi enterrado com procissão e muitas lágrimas das crianças, ou melhor dizendo, o enterro mesmo foi solitário, só eu, o enxadão e a pá de coveiro. As crianças vieram depois, chorar, rezar e fazer umas homenagens ao falecido.
Este texto quer falar do abacateiro que, pelas minhas contas deve ter mais de 50 anos. Passou por duas podas, depois de ter sido quase assassinado por sufocantes ervas de passarinho. Foi conservado para fornecer frutos para os vizinhos e amigos, pois em outros tempos eu acreditava que abacate fosse prejudicial à saúde, entupidor de artérias e "um veneno para o fígado", causador de enxaqueca. Hoje a revista Veja, na sua onisciência, me convenceu de que um abacatinho por semana não faz mal a ninguém.
Há poucos dias a Beth, nossa factótum (cozinha, lava, passa, jardina, capina, trata do Dida, e mais 7 ofícios) a Beth veio dizer: o abacateiro caiu.
- Mas, não pode ser, não ventou tanto, choveu pouco. Caiu só um galho?
- Não, caiu todo.
Fui verificar, preocupado com o estrago, pois o meu quintal é uma tripa de 8 metros de largura e 60 metros de comprimento. Como o abacateiro tinha uns 9 ou dez metros de altura, fiquei imaginando muro quebrado, ou casa do vizinho atingida.
Não caiu o tronco, caiu a copa toda, sobrecarregada de frutos e com a chuvinha continuada, mais uma deficiência no tronco e a copa toda arreou, quase na vertical, resvalando no muro e ficando bem longe da casa do vizinho. Que alívio!
Estou distribuindo abacate para todos os vizinhos, para dois orfanatos e ainda tem muito abacate para ser distribuido. Aquilo que poderia ser uma pequena tragédia, tornou-se uma lida que está me proporcionando, e aos outros também, muita alegria.
Enquanto lido com os abacates, fui recordando histórias ocorridas neste quintal, nestes 33 anos. A jaboticabeira morreu, brocada por abelhas arapuá (depois de fazer a alegria de muitas crianças e de muita gente grande). Numa parte do quintal existem dezenas de roseiras plantadas por Dona Marcolina, minha mãe, que hoje cuida das roseiras de São Pedro.
Ah! ia me esquecendo da enorme mangueira, toda judiada pelo fungos, mas mesmo assim proporcionando frutos saborosos para toda a vizinhança. Foi o castelo encantado das crianças mais afoitas e corajosas, assim como o esconderijo dos gambás, fugindo do Faisca.
É bem verdade, as árvores são parte da nossa vida.

marianicebarth disse...

Parabéns, Timtim!!!!!!!!!!!!
Que texto lindo! Consegui ler, "emboramente" seja um pouco difícil por estar em verde sobre azul escuro.
Mas adorei! Espero que você desfie todas as história gravadas a ouro nessa sua memória e com esse estilo gostoso. Copiando você, senti a tristeza do enterro do Faísca, caçador de gambás; a alegria dos abacates pelo chão, em profusão tal, que talvez sobre até para mim, que amo abacates (que me salvaram a vida uma vez); pena da jaboticabeira, que faz a alegria de qualquer criança; uma enorme vontade de ver as rosas nas dezenas de roseiras e sentir seu perfume, uma por uma; e a mangueira, árvore majestosa e acolhedora, cujos galhos abrigaram crianças e gambás. Que delícia de quintal você tem!

Polemikos disse...

"A árvore, com seus galhos alcançando o céu e suas raízes profundas na terra, pode ser
considerada como um elo vital na natureza, unindo o que está em cima com o que está em baixo."

Os homens sempre tiveram uma ligação especial com as árvores e nas religiões antigas, elas representavam os símbolos de fertilidade e imortalidade.

Admiro suas histórias de camaradagem com as árvores de seu quintal.